Despertei cedo e percebi que a chuva estava muito fina e a terra exalava um perfume de relva molhada que encantava meus sentidos. Arrumei tudo rápido no meu quarto e fechei bem as janelas para que não entrasse nem uma gota d’água enquanto estivesse do lado de fora para meus afazeres matinais – meditar para entrar em comunhão com a Natureza e buscar a harmonia dentro dos meus pensamentos. Há muito tempo tento em vão encontrar alguém que consiga acalmar meu coração e responda os questionamentos da minha vida. Principalmente nesses últimos anos em que o rei Shih Huang –Ti, se autoproclamou imperador da Dinastia Qin [1].
Os tempos eram difíceis. Habitualmente éramos recrutados para ajudar na construção de uma grande muralha para nos proteger de invasões do povo do Norte. E isso estava gerando revolta entre as classes populares contra o imperador Shih Huang –Ti. A melhor opção continuava sendo fugir para as montanhas do norte, principalmente na região de Shaqiu, cerca de dois meses de distância, por terra, da capital Xianyang.
Essa foi minha opção há pouco mais de três anos.
E hoje acredito ter sido a melhor escolha. Minha busca enfim terminara.
Desde o dia que cheguei ao mosteiro, tive a certeza que aqui era o lugar que tanto havia procurado. Aqui aprendemos a completa solidariedade entre o Homem e os Elementos da Natureza, tal qual Lao-Tse nos ensinou há pouco mais de cinco séculos.
Durante a manhã meditamos para harmonizar com o Ch’i [2] e, após os afazeres matinais, somos iniciados na arte do chi ch’iao [3]. A única coisa que ainda não me acostumei, nesse tempo inclemente, são as pesadas roupas que temos de usar. Exige demais de minha perna para andar nessa região montanhosa. Pelo menos a fortalece e me ajuda na prática elegante do chi ch’iao.
Esses ensinamentos eu aprendo a todo o momento observando o Mestre.
O Mestre Xao é o homem mais sábio que conheci em toda a minha vida. Acumula um conhecimento milenar que transmite aos seus aprendizes com muita sabedoria.
Todos os dias, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras da província de Shaqiu, o Mestre levanta-se para meditar sob a figueira, de onde aguarda seus discípulos.
E há essa hora, o Mestre já deveria estar rodeado por seus aprendizes, que certamente aguardavam ávidos os ensinamentos daquele dia.
Sem demora corri para o lugar de nosso encontro matinal – à sombra da figueira anciã. O Mestre me acena com um olhar e ao aproximar-me, o saúdo com o Kin Lai [4] e me assento próximo a ele, que já havia começado a lição de sabedoria.
De repente, o Mestre parou o ensinamento e perguntou-me:
– Que coisa o perturba, pequeno aprendiz?
– Ainda bem que perguntas, ó Mestre. Sinto que é chegado o momento de eu partir à procura de minha Alma Gêmea, aquela que haverá de ser minha parceira perfeita. A mais linda mulher do Universo.
O Mestre disse:
– Assim seja, meu filho, mas lembra-te: quando tua busca terminar, volta aqui com ela.
– Sem dúvida, Mestre. Decerto será assim.
Meus pensamentos ainda estavam confusos em fazer a pergunta que gostaria de fazer. Relutante com a resposta que o Mestre poderia me dar, perguntei:
– Mestre, realmente existe uma Alma Gêmea? Todos nós temos a nossa "outra metade"? Como reconhecê-la? Lendo nos seus olhos, na pele, no coração?
– Ninguém jamais conseguiu explicar como foram criadas as Almas Gêmeas – disse o Mestre. Mas eu me lembro bem de uma história...
“Diz uma lenda que no início, quando o Criador concebeu todas as Almas para viverem e evoluírem conforme o aprendizado da vida terrestre, algumas dessas Almas se dividiram em duas. Umas era somente Razão, outras somente Emoção.
Tudo nelas é igual. A única diferença foi que o Criador criou a Razão e a Emoção justamente para que elas possam se completar. É como se fosse um encaixe.
As Almas Gêmeas nem sempre se encontram, porém vivem sempre unidas pelo coração e por elas próprias. Por outro lado, quando se encontram, jamais se separam.
A Razão não sobrevive sem a Emoção. E a Emoção, por sua vez, precisa da Razão para viver.
Parte essencial uma da outra, as Almas Gêmeas buscavam reencontrar-se nas reencarnações para poderem, novamente, viverem juntas.”
* * *
Confesso que estava apreensivo com a explicação do Mestre. Como faria eu para encontrar minha Alma Gêmea.
O Mestre, que sempre parecia ler e entender meus pensamentos, completou:
– Volta-te para dentro de ti mesmo. Primeiro terás de te conhecer. Relaxa o teu corpo e a tua mente e poderás encontrar a tua Alma Gêmea enquanto dormes. Poderás então lembrar-te, conscientemente, desse encontro. Acredite pequeno aprendiz: sonhos podem se tornar realidade. Basta harmonizar o seu Ch’i na busca da tua Alma Gêmea.
Meus pensamentos começaram a serenar. Essas eram as palavras que me fizeram andar por todos os caminhos de sabedoria. E agora me sinto pronto para a minha missão. A missão da minha vida.
O Mestre vendo-me envolto em pensamentos, começa a escrever com nanquim em um pedaço de papel:

Enrola o pequeno pedaço de papel e levanta-se, caminhando até mim. Abre a parte da minha vestimenta e coloca o papel sobre meu peito.
– Um dia vossos caminhos se cruzarão – disse o Mestre – e saberás que dizem seus olhos, suas mãos. Sentirás o que diz sua pele. Neste momento estarão unidos pela alma e pelo espírito. Mesmo distantes estarão unidos em uma fusão perfeita - Alma, Espírito e Corpo. Anular-se-á o tempo e o espaço. Viverás para isso.
Por toda a vida.
_______________
[1] O rei de Qin (ou Ch’in) se autoproclamou primeiro imperador da dinastia Qin (221-206 a.C.). O nome China deriva dessa dinastia. O imperador unificou os estados feudais em um império administrativamente centralizado e culturalmente unificado. Aboliram-se as aristocracias hereditárias e seus territórios foram divididos em províncias governadas por burocratas nomeados pelo imperador. A capital de Qin transformou-se na primeira sede da China imperial. A dinastia Qin concluiu a Grande Muralha chinesa. O peso crescente dos impostos, o serviço militar e os trabalhos forçados criaram profundo ressentimento contra a dinastia Qin entre as classes populares, enquanto as classes intelectuais estavam ofendidas pela política governamental de controle do pensamento.
[2] Ch’i = energia interior.
[3] O chi ch’iao (Kung Fu) é um sistema de luta desenvolvido na China. Seus estilos surgiram das observações dos animais - a serpente (she), o leopardo (pao), a garça azul (hao), o dragão (lung) e o tigre (hu). O tigre ensinou o método de força dos ossos; o dragão desenvolveu grande força do espírito; a garça azul ensinou o treinamento dos tendões; o estilo do leopardo representou extrema força e a serpente instruiu na capacidade de fluir o ch'i - e também através de outras metodologias..
[4] Kin Lai é a "saudação tradicional" do Kung Fu e deve ser executada com ambas as mãos: a direita fechada (representando o sol) e a esquerda aberta (representando a lua) por cima da outra mão. Essa saudação é feita para indicar respeito e agradecimento. O Kin Lai ensina que usar a inteligência (mão esquerda em palma) é mais eficiente do que usar o punho (mão direita fechada).
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